22.1.12

O Costa Concordia e o estupro do BBB


Se determinados episódios simbolizam o fim de uma era, como o naufrágio do Titanic foi para a Belle Époque, podemos ter a esperança de que o acidente com o navio Costa Concordia, na Itália, e a suspeita de estupro no Big Brother Brasil venham a representar uma mudança na condução de políticas e programas, que simbolizam o espírito liberal, permissivo e desregulado que marcou o fim do século 20 e a primeira década do século 21.

É possível dizer que o acidente com o Costa Concordia encerra um período em que a Itália esteve entregue a um governante mafioso, encantado por buga-bugas, regadas a sexo, champagne e menores, uma espécie de BBB privado na vida um homem público. Os escândalos berlusconianos, reforçados por comportamentos inconvenientes também na vida pública, como referências depreciativas a outros chefes de Estado, "animavam" a condução do país rumo ao desastre econômico, simbólico da atual crise do neoliberalismo.

O capitão do Costa Concordia revela-se, assim, um bufão como Berlusconi. Para homenagear um tripulante, ignorou ser responsável pela segurança de mais de quatro mil pessoas, e aproximou-se perigosamente da costa italiana. Ao rasgar o casco do navio nas rochas próximas à ilha de Giglio, disse que as pedras não deveriam estar ali. E, pior, fez como os ratos, sendo o primeiro a abandonar o navio, deixando passageiros e tripulação à própria sorte.

A divulgação do áudio em que o comandante do navio, assustado e infantilizado diante do desastre que provocou, é energicamente advertido pelo chefe da capitania dos portos de Livorno de que tem que retornar à embarcação e assumir suas responsabilidades representa a restauração da dignidade diante de um episódio que reflete o desprezo pelas vidas humanas que marcou os anos de neoliberalismo na Itália, na Europa e no mundo.

Todo mundo vibrou e se impressionou com as palavras firmes do chefe da capitania dos portos, Gregorio de Falco, que demonstrou que os desastres têm responsáveis e que estes precisam se responsabilizar pelo que fazem. O capitão do Costa Concordia seria como os banqueiros que agiram muito além do limite da responsabilidade e sairam livres do estrago que causaram. Se estes não foram punidos - ao contrário, receberam socorro e ainda continuaram recebendo elevados bônus -, por que deveria pagar pelo acidente que custou 11 vidas e duas dezenas de desaparecidos, deve ter pensado o comandante do Costa Concordia.

Assim como o acidente do Costa Concordia, o suposto estupro no Big Brother Brasil expôs a irresponsabilidade do programa televisivo, regado a festas, álcool e exploração explícita da sexualidade, que, desta vez, se traduziram em movimentos além do esperado sob o edredon. O episódio, que se transformou em investigação policial, foi apenas um passo adiante na permissividade do programa que incita comportamentos transgressivos diante de uma platéia de milhões de telespectadores. Seria hipocrisia alguém dizer que ficou chocado.

O que o suposto estupro ao vivo pode trazer de importante é a exigência de um compromisso definitivo das emissoras com o preceito constitucional de que sua programação deve atender finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas, e respeitar valores éticos e sociais. Nada disso está contemplado no BBB e nos seus congêneres que proliferam em vários canais de televisão.
Tal exigência só pode ser exercida por uma participação cidadã no que é veiculado pelas emissoras de rádio e TV, que são concessões públicas, e, portanto, sujeitas a regras. Seria o controle social justo e democrático, que seus opositores tacham de censura. Interferir nas programações é zelar por sua qualidade e capacidade de contribuir para a educação, formação e diversão da população. Não é dirigismo de Estado e nem censura. Até porque deve ser feita por conselhos independentes, integrados por representantes de diferentes segmentos da sociedade, que assegurem sua pluralidade. Coisa que já existe em países europeus sem que tenham deixado de ser democráticos e gerado qualquer prejuízo às emissoras locais.

Por Mair Pena Neto

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Dinastias Midiáticas

Na imprensa brasileira mandam as dinastias estamentais. Os pais proprietários entregam a direção dos jornais, das revistas, das rádios e das televisões – das suas empresas – aos seus filhos, que repassam para os netos, perseverando todos no direito que se auto-atribuíram de decidir quem é e quem não é democrático, quem fala e quem não fala em nome da nação!

Assim tem sido ao longo de toda a história da imprensa no Brasil. No momento mais decisivo da história do século XX, em 1964, essas dinastias pregaram e apoiaram o golpe militar, assim como a instalação de uma longa ditadura, que mudou decisivamente os rumos do nosso país. Enquanto os militares intervinham nos poderes Judiciário e Legislativo, enquanto suspendiam todas as garantias constitucionais, enquanto fechavam todos órgãos de imprensa que discordaram do golpe e da ditadura, enquanto a maior repressão da nossa história recente se abatia sobre milhares de brasileiros presos, torturados, exilados e mortos, enquanto isso, as dinastias da imprensa mercantil se calaram sobre a repressão e apoiaram o regime militar!

Eram estes mesmos Mesquitas, Frias, Marinhos, Civitas, estes mesmos que transmitem por herança – como se fosse um bem privado – seu poder dinástico, transferindo-o para os seus filhos e netos. Os júlios, os otávios, os robertos, os victor, vão se sucedendo uns aos outros, a dinastia vai se perpetuando. Que se danem a democracia e o país, mas que se salvem as dinastias!

Mas, hoje, elas estão vendo seu poder se esvaindo pelos dedos. Conta-se que um desses herdeiros, rodando em torno da mesa da reunião do conselho editorial, herdada do pai, esbravejava irado: “onde foi que nós erramos? onde erramos?”. Estava desesperado porque a operação “mensalão” não conseguiu derrubar Lula elegendo o tucano, da sua preferência.

Se ele tivesse olhado os gráficos escondidos na sua sala, teria visto que, nos últimos dez anos, as tiragens dos jornais despencaram. A Folha de São Paulo, por exemplo, que é um dos de maior tiragem, perdeu em 10 anos, de 1997 a 2007, quase cinqüenta por cento dos seus leitores! Depois de quase ter atingido 600 mil leitores, vai fechar o ano de 2008 com menos de 300 mil! Uma queda ainda mais grave se considerarmos que, nesse período, houve crescimento demográfico, aumento do poder aquisitivo, maior interesse pela informação e elevação do índice de escolaridade dos brasileiros.

Os leitores deste jornal de direita estão entre os mais ricos da população. Noventa por cento dos seus menos de 300 mil exemplares são destinados aos leitores das classes A e B, as mesmas que não atingem dezoito por cento da população brasileira. Em outros termos, nove entre cada dez leitores do jornal pertencem aos setores de maior poder aquisitivo e suas condições de vida estão a léguas de distância das do nosso povo – esse povo que gosta do programa bolsa família, dos territórios de cidadania, da eletrificação rural, dos mini-créditos, do aumento real do salário mínimo, da elevação do emprego formal, etc.

A última e mais recente pesquisa sobre o apoio ao governo Lula, que a imprensa dinástica procurou esconder, realizada pela Sensus, revela que Lula é rejeitado por apenas treze por cento dos brasileiros! É essa ínfima minoria, cinco vezes menor do que aquela dos que apóiam o governo Lula, que povoa os editoriais dessa imprensa, suas colunas, seus painéis de cartas dos leitores! Esse é o índice da influência real que a mídia mercantil – juntando televisão, rádio, jornais, revistas, internets, blogs – tem! Apesar de todos os instrumentos monopólicos de que dispõem, apesar das campanhas diárias para dominar a opinião pública, não conseguem nada além desse pífio resultado dos treze por cento que representam!

As dinastias podem continuar a ter filhos, netos e bisnetos, mas é possível que já não dirijam jornais. Esta pode ser a última geração de jornalistas dinásticos que, talvez exatamente por isso, revelam diariamente o desespero da sua impotência, assumindo o mesmo papel que ocuparam nos anos prévios a 1964. É o mesmo desespero da direita diante da popularidade de um Getúlio e do governo Jango. Nos dois casos, só lhes restou apelar à intervenção das Forças Armadas e dos EUA, estes mesmos EUA que nunca fizeram autocrítica, nem desta nem de qualquer outra das suas intervenções contrárias à democracia da qual pretendem ser os arautos! Depois de terem pedido e apoiado o golpe militar, porque ainda acreditam que podem dizer quem é democrático e quem não é?

Por Emir Sader